0 com

A limonada

Escurece depressa depois de um dia tão lindo, já fui até obrigada a acender da luz da mesinha de cabeceira, porque começa a ser uma tarefa difícil ver as teclas. Ao meu lado estão duas garrafas de água cheias de limonada alcalina, uma mistura horrorosa que tenho que beber hoje a partir do momento em que a médica me disse que tenho gastroenterite aguda.

Ainda vi e sentir o calor do sol quando tive que me arrastar até ao centro de saúde e até às comprar para trazer tudo o necessário para me curar. Sinto como se estivesse numa montanha russa, num momento estou bem e com vontade de fazer dezenas de coisas, e minutos depois parece que esse momento não aconteceu enquanto me arrasto para a cama agarrada à barriga. Uma autêntica ressaca sem bebedeira.

Por isso o dia me pareceu tão estranho, são os efeito em quem fica verdadeiramente doente numa segunda-feira. O timing não podia ser melhor, de facto, é uma espécie de aperitivo as férias da Páscoa que tardam em fazer a sua aparição. Isto, se esquecermos por momentos as dores horríveis e a espera no centro de saúde, a médica a pressionar a minha barriga até as lágrimas me saltarem dos olhos e a o regresso a casa carregada com os asquerosos limões (nem falemos em como me custou espremer-los).

Mas não me posso queixar muito, afinal de contas faltei às aulas numa segunda, para ficar em casa a beber limonada e a desfrutar do bom tempo.

No entanto, foi uma excepção este dia, porque este último mês mais parece o circo dos horrores. E ainda estou a digerir a enormidade dos egos que fui conhecendo.
Professores que gozam com as nossas capacidades só para se sentirem superiores foi a saudação de cada dia. A desculpa é sempre que a profissão (jornalismo= é muito dura (pergunto-me que profissão não o será), que os jornalistas são mais precisos que nunca para dar voz ao povo (claro, se primeiro mudarem a mentalidade e comportamento), que se deve bajular os nossos chefes e estar preparados para passar fome porque a crise é aterradora.

Mas neste momento o que me parece mais aterrador é mesmo a maneira como nos tratam. Concordo na necessidade de nos alertar para a realidade da profissão, mas daí a aplicar esses comportamentos em aula só vai causar uma coisa: a dureza do meio na vai mudar se fizerem lavagem cerebral aos futuros informadores.

Mais que criticar até ao mais ínfimo detalhe defendo que se deve adoptar a estratégia de motivar os alunos. Senão não há optimismo e determinação que lhe resista.
0 com

Uma resposta tardia

 
A chuva, a neve e o frio dos últimos dias apanharam-me desprevenida. Mas depois de vestir mais um par de camisolas percebi o quanto gosto de dias assim. Madrid é uma cidade com muito sol e a chuva mais parece uma anomalia que confunde todas as estatísticas e previsões.
São dias destes que arrasam com as nossas expectativas. E eu às vezes sinto-me assim, sinto-me a pessoa que baralha as previsões, aquela que não se comporta como devia...
Ontem, num reviver do passado recordei-me de um inquérito que preenchi no colégio à alguns anos. Lembro-me de duas perguntas em especial: Quais as tuas disciplinas favoritas? e Quais as disciplinas em que sentes mais dificuldades?
Ainda na minha inocência e sem qualquer pretensão recordo que a minha resposta para ambas foi: Português e Matemática.
Enquanto a minha professora recolhia os questionários lembro-me de ter parado para ler as minhas respostas. E passado pouco tempo vejo aparecer um sorriso incrédulo no seu rosto; então, como se estivesse a falar com uma criança que vive noutro planeta pergunta-me: Ana, como é que podes gostar das coisas com as quais tens mais dificuldades?

Lembro-me de sentir aquilo que mais tarde percebi ser humilhação, e fiquei calada porque ainda não podia formular resposta para essa pergunta. Duvido que mesmo agora a minha explicação seja satisfatória, mas acredito que os seres humanos evoluem para superar as suas próprias debilidades. Criamos aviões para nos movermos mais rapidamente, a medicina para curar mais rapidamente, a escrita para guardar as nossas memórias, os arranha-céus para chegarmos mais alto...
Constantemente vemos pessoas a desafiarem-se para ir mais longe. E nem por um segundo duvido que sentissem medo.

Multiplicam-se os especialistas, os livros, os estudos: crescemos com as crises que superamos, e a verdadeira evolução e mudança acontecem quando nos atrevemos a enfrentar as nossas próprias limitações. Já evoluímos tanto tecnologicamente, contudo, não poderemos ir mais longe se não nos mudarmos a nós próprios. Falta reconhecer que temos medo dessa mudança e seguir em frente.

Até porque duvido que se hoje voltasse a dar a mesma resposta a esse questionário, a reacção fosse diferente. E continuo sem perceber o que há de errado em gostar de desafios...
0 com

Jornalista: ser ou não ser?


A minha ausência deste blog foi prolongada, e mesmo agora não estou segura se serei capaz de voltar ao meu antigo ritmo. Estes últimos meses estive totalmente concentrada em desenvolver as minhas capacidades.
O facto de falar e escrever constantemente o espanhol parece ser a melhor forma de aprender o idioma, no entanto não deixa de ser um caminho recheado de dificuldades. Sinto falta de me exprimir sem barreiras, há coisas que não consigo dizer e uma simples conversa pode deixar-me exausta (principalmente ao fim de um complicado dia). Há dias, no entanto que o difícil é o voltar à minha língua materna, e por vezes fico minutos num estado de extrema confusão sem ser capaz de articular algo que faça sentido.

Nunca pensei que ia mergulhar de cabeça no mundo do jornalismo, afinal de contas nunca me imaginei no papel de destemida repórter, tão bem explicado por Lois Lane no Super-homem, uma jornalista em busca da verdade. Infelizmente a imagem que a sociedade tem dos jornalistas é bem diferente desses tempos, passamos dos desgraçados em busca da verdade aos desgraçados que a desvirtuam... O pior dos preconceitos sociais é que são bastante rápidos em estabelecer-se quando negativos e muito difíceis de mudar (para coisas positivas).
De repente as más acções de uns são suficientes para rotular toda uma profissão. Mesmo José Socrates, à poucos dias, se lamentava do jornalismo de buraco de fechadura do nosso país.

Eu continuo alheia a esses preconceitos e já são suficientes as minhas atribulações. Há alturas em que não me sinto talhada para esta profissão, mas percebo que todos passam por dificuldades e que ninguém nasce ensinado.
Ainda no outro dia trabalhava numa reportagem sobre o Ano Internacional da Biodiversidade. Passei dias a falar com pessoas que não conhecia tentando ocultar o meu nervosismo. Ao fim de uma semana devo admitir que ganhei algum calo nestas coisas, comecei a ser mais atrevida e assertiva... fartei-me de ouvir as mesmas respostas e fartei-me das imensas chamadas que caíram no vazio.
Tenho muito para aprender ainda e o único que me chateia é o facto de não ter ajuda. Tenho aprendido com as minhas quedas, com as vezes em que vou pelo caminho errado e com as vezes que bato com a cabeça na parede.

Acredito que esse tipo de ensino é mais produtivo que qualquer outro, mas eu não me sentia nada preparada e, acima de tudo, nunca tinha experimentado trabalhar com tanto gosto apenas para ver o meu trabalho destroçado pelas críticas. Como sempre, terei que continuar a tentar.
Ao menos percebi uma coisa, se vou trabalhar algum dia, se me vou especializar em algo, mais vale que o faça na área que mais gosto, na área que mais me motive a trabalhar. Nunca serei capaz de trabalhar para que aprovem o meu trabalho, percebi finalmente que a realização pessoal parte de nós próprios. A aceitação virá depois, ou pode nunca aparecer. O importante é que eu seja capaz de dar valor às minhas tentativas e fracassos, o resto é dispensável.

Lancei-me na blogosfera espanhola com a minha nova página de divulgação científica. Sinto-me imensamente motivada com este atrevimento. Claro que no início tinha a certeza de que tinha perdido o pouco juízo que me resta. Mas agora sinto que foi a decisão certa a tomar, não sei o que me aguarda no futuro, nem sequer tenho planos para depois do mestrado. Por isso decidi apostar em mim, crescer por mim mesma nem que seja pelos erros que vou cometendo, até porque uma pessoa que nunca fracassou não está preparada para lidar com as suas próprias debilidades.

P.S. sinto saudades de Portugal, por isso decidi começar este post com uma música que surpreendeu bastante e é uma das minhas favoritas desde que a ouvi pela primeira vez.
1 com

Nostalgia



Esta música de Lenka chama-se "The show" e não podia descrever melhor aquilo que sinto neste momento. Porque às vezes sinto que vivo uma ilusão, mesmo estando a lutar pelos meus sonhos.

Com viagem marcada para este domingo à noite sinto já uma leve nostalgia por ter de deixar em breve a minha casa.
Até breve....
0 com

O futuro...

Pouco falta para o final de mais um ano e, como sempre tento avaliar os meus progressos enquanto me permito um breve descanso. Tenho pena de admitir que nunca sou bem sucedida nessa avaliação e acabo sempre por preferir contemplar o meu futuro do que perder-me em sonhos do passado que não posso reaver.

Embora a passagem de ano não tenha qualquer significado especial para mim acabo por ficar contagiada pela esperança que sempre se sente nesta época. Uma esperança de uma vida melhor que, para muitos acaba com a ressaca no raiar de um novo dia, quando nos levantamos e sentimos que tudo permanece igual... Contudo acredito que somos nós mesmos quem mais resiste a essa mudança, porque tememos as coisas que mais desejamos, tememos que, ao obtê-las a nossa vida perca o seu propósito. Por isso, enquanto permanecemos fieis à convicção de que a nossa vida precisa de uma mudança, tememos largar as coisas que tão bem conhecemos...

Não há fórmulas mágicas nem truques que nos possam ajudar a conseguir aquilo que mais desejamos.Nem são os outros que nos irão levar pelos caminhos que devemos seguir. Tornamo-nos capazes de estar atentos a tanta coisa ao mesmo tempo: podemos escrever uma mensagem enquanto comemos, vemos televisão e participamos numa conversa... Podemos jogar computador, falar ao telemóvel e ouvir algo que alguém tem para nos dizer. Mas estamos apenas a mentir a nós próprios, dividimos a nossa atenção e por isso não conseguimos reter nada. Vivemos absorvidos num mundo onde não temos sequer tempo para respirar, como poderíamos notar sequer o rumo que as coisas agora tomam? Não reparamos por acaso que, enquanto perdemos tempo em previsões fatalistas o mundo avança, quer queiramos quer não?

Estamos numa época de grande mudança e tudo o que parece importar é o próximo escândalo e a próxima má medida a criticar... mas, como aprendi, é o povo quem concede o poder a uma pequena parte para que esta o possa guiar, esse é um poder emprestado, é algo passageiro, e embora desperte paixões e leve pessoas a cometer actos de loucura, essas não devem ser culpadas. Ou já nos esquecemos quem os colocou lá em primeiro lugar?


Consigo sempre serenar quando ouço esta música, por isso não podia deixar de a partilhar: Toranja - Laços.
1 com

A ciência na sociedade

Sinto-me um pouco limitada quando escrevo neste blog sempre que penso nas expectativas dos meus supostos leitores. E quanto a isso só há duas coisas a fazer: ignorar essas expectativas e escrever aquilo que me apetece ou tentar levar este blog mais a sério e especializar-me na divulgação da ciência (área para a qual me tento formar).
Mas mudar algo implica sempre perdas: perder leitores, perder um objectivo, perder ânimo para me lançar em terrenos desconhecidos. E apesar de todas as perdas implicarem ganhos, esses só serão visíveis muito mais à frente no nosso caminho. Contudo, qualquer que seja a minha decisão sei que sempre serei uma criatura de humores, portanto, enquanto me achar livre na concepção e desenho desta página sei que as minhas palavras e os meus temas serão como sempre foram: imprevisíveis...

Cheguei à pouco mais de um dia a Portugal, e depois de um período em que estranhei tanto o meu país, as suas gentes e mesmo a minha casa, consegui finalmente acalmar e resgatar um pouco do conforto e da segurança que sempre aqui senti. Por isso, não posso negar que, neste momento, não cabe na minha cabeça a ideia de voltar definitivamente a Portugal, aliás, reparei que nos últimos tempos, pensar que um dia teria que deixar Madrid é algo que me deixa bastante desconfortável... Mesmo assim, sinto-me bastante optimista com esse desconforto. Porque isso para mim significa que nunca deixarei de lutar pelos meus sonhos e por uma vida melhor, por muito ridículos e dificeis que me pareçam as minhas aspirações.

Apesar de Jornalismo, como tantas outras, ser uma profissão em declínio não deixo de notar que o tempo e papel dedicados à divulgação da ciência nos meios de comunicação são tão anedóticos que deviam envergonhar a nossa sociedade. E não é na divulgação dos avanços da ciência que nos devíamos envergonhar mais, é no facto de a sociedade permanecer analfabeta em assuntos de ciência: como funciona esta comunidade, quais os seus problemas, quais os seus objectivos.
Porque se alguma coisa aprendi é que a ciência de elites, que se dissolveu com a industrialização, continua bem viva nos imaginários do comum cidadão, nos raros momentos em que a sua mente vagueia por esse campo... Incluir a ciência na cultura é um sonho de muitos cientistas, contudo, não posso deixar de me sentir exasperada quando me encontro com a contradição dos seus comportamentos: incredulidade perante a "analfabetização" da população em assuntos de ciência e desespero quando vêem a sociedade intrometer-se nos seus frágeis sistemas de equilíbrio.
Uma ciência que se isola da sociedade é uma ciência que perde e que não pode crescer... O futuro é negro se escolhermos manter a ciência à margem da sociedade, se escolhermos deixá-la no pedestal onde se instalou ignorando o mundo cá em baixo.
1 com

Três dias em Granada

A pouco menos de 3 horas de embarcar no autocarro que me vai levar a Portugal sinto-me a agonizar com o lento passar do tempo. Assim, decidi que estava na altura de combater a preguiça de escrever que recentemente se instalou em mim...
Esta última semana foram muitos os rascunhos que por aqui deixei, sempre sem vontade de os completar e publicar. Mas, uma vez que estou a estudar para ser jornalista não posso recuar perante uma oportunidade de escrever, principalmente se é para dizer aquilo que me apetece ou para melhorar a minha capacidade de contar histórias e notícias.
Com a exigência deste mestrado a revelar-se agora no seu pleno esplendor a minha primeira reacção foi recuar e dizer a mim mesma que não tinha jeito para isto. Pois é, o medo é tramado, assim que percebemos as verdadeiras implicações das coisas é sempre mais fácil dizer que não temos capacidades do que admitir que o conseguiremos com muito esforço.

Assim, ao contrário daquilo que se espera de um jornalista, eu sou capaz de começar cada artigo que escrevo contando as coisas mais irrelevantes e imprevisíveis. Sinto que preciso sempre de um "aquecimento" até estar preparada para contar a verdadeira história. Infelizmente, não é isso que se espera quando abrimos um jornal ou uma revista (embora agora sejam cada vez menos aqueles que o façam), pelo contrário, esperamos brevidade e esperamos novidades e factos relevantes.
Mas depois de dois intensivos meses de iniciação numa arte que eu desconhecia por completo, não posso deixar de sentir que me sabe bem escrever sobre assunto algum!

Contudo, não podia passar por aqui sem deixar um pedaçinho das aventuras que vivi em Granada...

Apesar de ser incapaz de dormir no autocarro consegui desfrutar da viagem a ouvir músicas antigas e a pensar na minha vida, sem me torturar com preocupações. O primeiro dia (sexta-feira dia 11) passou muito rápido, perdemos tempo à procura do hotel onde ficaríamos alojadas, andamos um pouco pela cidade, comemos do mais típico e barato... e mesmo nesse curto espaço de tempo ficamos maravilhadas com as paisagens de Granada.
No sábado acordamos cedo rumo a Alhambra, uma antiga cidade árabe que agora só existe para nos recordar de tempos passados e cujo encanto dos castelos nos faz sonhar com vidas tão diferentes das nossas.
Pela noite, quase vencidas pelo cansaço fomos a uma conferência/ espectáculo de encerramento do ano internacional da Astronomia... apesar do evento em si não ter sido satisfatório, não pude deixar de ficar espantada com a música de Antonio Arias que tenta unir a arte à astronomia (aqui vai o link para os curiosos: http://www.myspace.com/antonioariasmultiverso).
O dia acabou, mais uma vez, com umas tapas e um copo na mão, umas caras cansadas de sorriso alegre e uns olhos brilhantes das maravilhas que tivemos a oportunidade de conhecer.

O domingo chegou demasiado rápido: comprar recordações, conhecer o bairro árabe da cidade (principalmente o miradouros, a parte do "chegar lá a cima" é que foi a mais difícil), fazer as malas e dormir...

Ainda ensonadas apanhamos o autocarro de volta a Madrid na segunda-feira de manhã... e a neve decidiu aparecer, depois de ter tardado tanto em anunciar-se. Cansadas e quase a não chegar a tempo das aulas demos o dia por terminado e tenho agora recordações que vou guardar sempre com carinho de uma cidade cuja beleza é capaz de me fazer sorrir.
Related Posts with Thumbnails